Sem melancolia com o Millencolin — entrevista Fredrik Larzon (baterista)

O frio intenso em partes do ano, às vezes acompanhado da neve, cria um cenário bucólico na Suécia que, segundo moradores do país, é um dos fatores que contribui para que tantas bandas sejam formadas por lá. Afinal, reunir os amigos e mandar um som em alguma garagem e/ou estúdio aquece os corações e ajuda a passar o tempo. Mas há bandas da nação escandinava que conseguem criar um clima ensolarado em suas composições independentemente da estação do ano. É o caso do Millencolin, que buscou referências, principalmente, no punk rock melódico da Califórnia (EUA) para criar músicas apropriadas para uma session de surf ou skate.

Surgido nos anos 1990, o grupo despontou — ao menos no Brasil — na mesma década, quando nomes como Bad Religion, Pennywise e NOFX ganharam popularidade em solo nacional. Pegando influência desses artistas, mas criando uma identidade própria, o Millencolin conquistou seu espaço entre o público fã de punk rock/HC menos truncado.

Em 2017, o quarteto retorna ao Brasil para mostrar serviço em cena, comprovando que, além dos esportes radicais, é excelente trilha para moshpits e rodas de pogo. Em Porto Alegre, a apresentação rola domingo,8 de outubro, às 21h, no Opinião (José do Patrocínio, 834).

O baterista Fredrik Larzon respondeu alguma perguntas exclusivas para a Abstratti Produtora via e-mail, diretamente de sua terra natal. Entre os temas, o porquê de a Suécia ser tão prolífica na cena roqueira mundial, radicalismos e história do Millencolin.

Como fã de rock sueco, preciso começar esta entrevista perguntando: tem algo na água do seu país (risos)? Porque há muitas bandas legais de diferentes vertentes. Podemos citar Millencolin, Entombed A.D, Dismember, At The Gates, In Flames, Hellacopters, Anti-Cimex, Wolfbrigade, Disfear, Dissection, Nasum, Refused, The Hives, Grave, Masshysteri, Unleashed, Kvoteringen (que tem você como baterista), Genocide Superstars, Graveyard, No Fun At All, Håkan Hellström, Invsn… e até ABBA e Europe. Qual sua opinião sobre o fato de existirem tantos artistas bacanas na Suécia?

Fredrik Larzon — Valeu! Legal saber que você curte nossa música — e as bandas citadas são realmente sensacionais!
Não é fácil dar a você uma razão. Alguns dizem que nos anos 1980 e 1990 o Estado apoiava associações internacionais economicamente e isso resultou em um monte de grupos musicais e artistas solos. Outro acreditam ser o clima, ironicamente. Para nós, como conjunto, nos ajudou muito ter um lugar para ir e alugar equipamento e gravar demos em um estúdio por uma pequena taxa anual. Isso nos inspirou e nos deu liberdade para promover shows e coisas do tipo. Quanto mais ensaiávamos, mais tempo de graça no estúdio a gente conseguia. Muitas das bandas daqui, incluindo o Millencolin, se inspiraram nos Estados Unidos ou na Inglaterra para criar algo diferente. Era trabalho duro e dedicação.
Ao mesmo tempo, temos todos os tipos de música, TV e filmes por aqui que não são dublados de seus idiomas originais. Além disso, aprendemos inglês desde muito cedo nas escolas, bem como outros idiomas. E isso facilita as coisas para quem busca encontrar público fora da Suécia. Claro que a maioria das produções na mídia vinham dos EUA e da Inglaterra.

Outra questão interessante é bandas de estilos distintos parecerem parceiras e curtir diferentes tipos de som. Isso é maravilhoso e comum hoje em dia, mas, no passado, não era tão normal. As pessoas achavam estranho, por exemplo, pegar um encarte de banda death metal agradecendo outra de hardcore melódico (no encarte do álbum Clandestine, do Entombed, o quarteto death metal saúda o Bad Religion, por exemplo). Como é isso com vocês?

Fredrik Larzon — Eu concordo, pelo menos em relação a certo período. Claro que há muita divisão por gênero aqui, mas eu não senti isso por um longo tempo. Porém, nunca sentimos a necessidade de fazer parte de uma cena específica.
A Suécia é um país muito pequeno, e penso que, cedo ou tarde, você vai topar com outros artistas, independentemente do tipo de som que faz. Isso faz a gente descobrir que somos apenas pessoas compartilhando nosso amor pela música. São apenas tipos ou graus de extremos diferentes. É música: se você gosta, curta! Se não, apenas não ouça. É uma questão de mostrar respeito, além de ser uma boa maneira de buscar inspiração quando não se fica restrito a um estilo.

O Millencolin começou nos anos 1990. Como era a cena punk com a qual vocês tinham contato?

Fredrik Larzon — Quando começamos a banda, havia poucas bandas fazendo algo similar (No Fun At All, Superdong/Skumback, Randy, Satanic Surfers etc). Creio que fomos pegos pelo punk/hc estadunidense, especialmente o do sul da Califórnia. O skate também foi crucial! Sem skate, provavelmente não haveria Millencolin. Os outros três caras (Nikola Sarcevic — baixo e voz, Mathias Färm — guitarra e Erik Ohlsson — guitarra) andam de skate desde adolescentes e ficavam praticando no carrinho sempre que não estávamos ensaiando. Ouvimos um monte de música que nos inspirou nos vídeos de skate e decidimos começar uma banda no estilo desses artistas. A gente também tocava em outras bandas. Não demorou muito para abandonarmos os outros projetos musicais e focarmos no Millencolin. A cena era boa: muitos shows, muita gente nas gigs. A gente fazia eventos e convidava outras bandas e vice-versa. Trocávamos demo, fazíamos fanzine e coisas assim.

O Millenconlin tem uma referência forte do punk estadunidense, mais do que do europeu. Ao menos no Brasil, a banda passou a receber mais atenção quando nomes como Green Day, Rancid, Bad Religion, Pennywise e até Offspring começaram a fazer sucesso em nosso país. Vocês se sentem parte desta onda do punk rock noventista?

Fredrik Larzon — Sim! Ouvíamos muito o que saía pela Epitah e pela Fat Wreck. Fomos muito influenciados por Bad Religion, Descendents, Operation Ivy, Pennywise, NOFX e outros. Fizemos alguns shows no começo da carreira com Bad Religion e Offspring aqui na Suécia. Também rolou um tour na Europa com o Pennywise. Ao assinarmos com a Epitath, isso ficou mais evidente. Definitivamente, nos sentimos parte deste movimento!

Quais bandas foram como heróis para vocês e quais elementos do hardcore estadunidense chamaram sua atenção?

Fredrik Larzon — As bandas que mencionei anteriormente, junto com Circle Jerks, Misfits, Agent Orange, Quicksand e Samiam foram algumas das que nos influenciaram. Também tivemos referências de artistas suecos e de outros estilos. Sempre tentamos manter a mente aberta para sempre estarmos inspirados.

Como a Epitath descobriu o Millencolin. O quão importante foi ter essa oportunidade de mostrar sua música para o público ‘certo’ — não que a Europa fosse o alvo errado, mas o som de vocês parece ter mais apelo na América?

Fredrik Larzon — Começamos a trabalhar com a Burning Heart Records, da Suécia, depois das nossas demos. Como eles lançavam artistas similares, porém suecos, para a Epitah, as duas gravadoras começaram a fazer parcerias. Porém, assinamos ainda antes disso com a Epitaph. Lembro do Fletcher (Pennywise) falando para o Brett (dono da Epitaph e integrante do Bad Religion) no meio de uma bebedeira para ele assinar com a gente. Hahaha
Em 1995, isso aconteceu e o Life On A Plate saiu nos EUA logo depois de termos feito uma Vans Warped Tour por lá. Foi algo grandioso para nós, com certeza. Desde então, trabalhamos juntos (Millencolin e Epitaph)!

Como vocês lidam com a questão de fazer sons só por diversão e outros mais sérios, como uma ‘real banda punk (brincadeirinha!)?

Fredrik Larzon — Nikola escreve boa parte das letras, mas entendo o que você está falando. Sempre quisemos fazer punk melódico com sons sobre o cotidiano, descrevendo situações alegres e problemas sérios.

Tem sido assim desde sempre, mas é cada vez mais importante para a gente com o passar dos anos lidar com algumas questões. Como as mudanças no mundo e o jeito que as pessoas tratam umas às outras, por exemplo. Às vezes é preciso ficar atento às entrelinhas para entender o significado das nossas músicas. Creio que Nikola é um excelente compositor!

O disco mais recente True Brew é um bom exemplo: há temas positivos, mas também músicas mais críticas, como ‘Sense & Sensibility’. Essa faixa fala sobre as merdas feitas por racistas e nacionalistas idiotas. Como está esse lance na Suécia e o que você pensa de episódios recentes envolvendo essas questões, como em Charlottesville?

Fredrik Larzon — É muito ruim! O racismo está crescendo por toda a Europa e é assustador e fudidamente nojento!

Como merdas assim impactam sua arte e até suas vidas pessoais?

Fredrik Larzon – Temos o poder de dizer o que sentimos sobre isso e parece mais importante do que nunca nos mostrarmos contra isso.

E sobre disco novo, há algo nesse sentido?

Fredrik Larzon — Sim! Temos ideias para sons e tal, mas antes queremos nos concentrar na turnê pela América do Sul e os shows na Suécia que virão em seguida. Estamos muito felizes sobre essa gira e ansiosos para tocar no Brasil! Obrigado pelas perguntas! Nos vemos nos shows!

Por Homero Pivotto Jr.

Mr. Big

Na medida para quem aprecia boa música — ENTREVISTA ERIC MARTIN (Mr. Big)

Grandes artistas não deixam que seus egos fiquem maiores que o talento pelos quais são conhecidos. E fazem esforço para manter a estatura em tempos nos quais atividades culturais são cada vez mais diminuídas. Eric Martin, o vocalista do Mr. Big, é um bom exemplo. Viu a popularidade de sua banda crescer rapidamente nos anos 1990 para, alguns anos depois, perder espaço nas paradas de sucesso. Mas, com perseverança e a maior das boas-vontades — sem falar na qualidade de seu trabalho —, voltou a figurar entre os gigantes do rock. Se não em vendagens, ao menos em qualidade. Em julho deste ano, o quarteto californiano lançou o nono disco da carreira, Defying Gravity. Além disso, segue protagonizando shows grandiosos por onde passa. Porto Alegre recebe novamente o conjunto em 22 de agosto, no Opinião. Conversamos com o vocalista Eric Martin sobre como manter a grandeza atualmente e o que é necessário para continuar um frontman acima da média no palco.

O Mr. Big fez shows memoráveis em Porto Alegre: no Opinião (2011) — para onde a banda retornará em 22 de agosto — e no Pepsi on Stage (2015), uma casa maior. Quais suas lembranças das apresentações por aqui? Prefere locais menores ou grandes casas de show?

Eric Martin — Amo os palcos pequenos como artista solo, quando toco acústico ou tenho poucos músicos comigo. A sensação de intimidade, de estar próximo, é meu tipo favorito de show. Mas com o Mr. Big tudo tem de ser grande. Temos uma parede de som bombástica que é melhor se houver espaço para detonar. Nossa banda soa melhor em locais maiores. Porém, dito isso, um dos meus discos ao vivo preferidos entre os que gravamos foi registrado no Hard Rock Café de Singapura. Devia ter umas 300 pessoas.

Vocês lançaram um novo disco em julho deste ano. Considerando o atual contexto da indústria musical, o Mr. Big poderia ser tão grande quanto foi no cenário dos anos 1990? Por quê?

Eric Martin — O clima no meio musical mudou há muito tempo e não demos bola. Tivemos altos e baixos, como qualquer um. Apenas fomos com o fluxo. Teria sido ótimo obter o mesmo sucesso que tivemos nos 90’s, mas a vida é o que é. Não estou lamentando. Eu apenas tento fazer os melhores discos que posso. Assim, vou para a estrada cantar e detonar com todos vocês.

Quais apontaria como as grandes mudanças na indústria fonográfica desde que o Mr. Big começou?

Eric Martin — As gravadoras de antigamente eram grandes e poderosas. Elas assinavam com qualquer um e dispensavam os que não tinham hits. Fomos mais sortudos que muitas outras bandas. Mas eles não observavam no contexto geral de se construir uma carreira. Depois de ‘To Be with You’ detonar, eles continuaram em busca de um novo sucesso como esse por alguns álbuns. Eu não era um compositor de hits, acho. Pensava que fazíamos excelentes músicas, mas não era o que a companhia desejava e, eventualmente, fomos dispensados. Hey, são negócios…ha! As gravadoras que cuidam dos nossos discos agora fazem o melhor que podem. A Frontiers, na Europa, tem nos apoiado em todo o caminho muito bem, e a WOWOW, no Japão, é como família para nós.

O Mr. Big está prestes a completar três décadas de carreira. Qual você considera a grande conquista que a banda fez durante esse tempo?

Eric Martin — Óbvio que ter o single número em 15 países foi além de qualquer expectativa. Fomos abençoados em viajar pelo mundo diversas vezes. Tivemos alguns contratempos e uma ou duas grandes rupturas, mas encontramos nosso caminho, nos reunimos e agora estamos maiores e melhores espiritualmente do que antes. Teve também uma ocasião especial em que fomos a atração principal de um festival na praia de Santos (SP), tocando para 100 mil pessoas. Ainda posso me ver andando na passarela entre o palco e o público, em noite de lua cheia, cantando ‘Addicted to the Rush’ e sentindo aquele calor da plateia. Que noite sensacional e que lembrança maravilhosa!

Todas as outras vezes que o grupo passou pelo Brasil protagonizou performances intensas. A banda está sempre em boa forma. Como manter esta grande paixão por tocar ao vivo?

Eric Martin — Amo o que faço! Eu vivo para o Mr. Big e os fãs de rock brasileiros fazem com eu enlouqueça!

Quais foram as grandes influências da banda no início e quais artistas fazem vocês vibrarem hoje em dia?

Eric Martin — Fomos todos influenciados por bandas dos anos 1970 quando iniciamos. Eu sou fã do Paul Rogers, vocalista do FREE/Bad Company, há décadas. Ele era e sempre será meu ídolo. Já vi o cara ao vivo algumas vezes e tive a chance de cantar o clássico “Alright Now” com ele. Vi a passagem de som dele uma vez e aquilo foi surpreendente. Ele é impecável, um imortal! Um nome novo que eu tenho escutado e curtido é John Mayer, um dos melhores guitarristas desde Eric Clapton. Suas músicas têm muito significado, como se fossem escritas pessoalmente para mim. Ele tem uma voz de veludo que me encanta. E parece como um filho da puta sarcástico que consegue te irritar, mas você continua o amando como um amigo. Não somos amigos… ainda!

O que você diria para convencer as pessoas a estarem com você no Opinião em 22 de agosto?

Eric Martin — Sinto o amor que vocês têm pelo rock e a paixão e a energia que produzem como audiência. O público do Brasil estabeleceu padrões altos para o rock’n’roll americano. Não podemos ser desleixados, até porque o Mr. Big não faria isso. Nossos shows tem de ser quase perfeitos. Precisamos estar sincronizados. Me incomoda quando leio algo como ‘ eles não foram tão bons quanto da última vez’. Tivemos apresentações monumentais no Brasil e estou me preparando para gastar cada pedaço da minha alma entretendo vocês. Vamos detonar!

Por Homero Pivotto Jr.